“Venho do fundo do tempo
Abrindo trilhas na história
Madeira, seiva e memória
Que brotam livres no vento
Eu sou esteio, sustento
De pago, pampa e pas
Eu sou a ancestral raiz
Que pulsa em cada semente
Eu sou a própria vertente
Do mundo que eu mesmo fiz”

Eu sou o verso que encerra
Da minha estirpe o sentido
Guerreiro ao fim preterido
Pelas partilhas de guerra
Aos outros tocou a terra
A mim o dom de cantor
Mas sei que tem mais valor
Quem canta suas verdades
Com as rédeas da liberdade
De não ter lei, nem senhor

Não quero pena, nem glória
Por tudo que sou e digo
Três raças cantam comigo
E atestam minha trajetória
Nas lutas demarcatórias
Junto aos fortins de fronteira
Eu fui a voz das trincheiras
No anteceder das batalhas
Fui copla de amor, fui mortalha
Dos gauchos de três bandeiras

“Não busquem meu nascimento
Rastreando antigos papéis
Meu berço está nos quartéis
De um tempo já sem idade
Mangrulhos de imensidade
Vigiando os quatro horizontes
No longe, o verde dos montes
No perto as lagoas calmas
Em cima, o lume da dalva Prateando a água das fontes”

Por isso não canto em vão
Nem sigo a falsas estrelas
Há tanta gente que ao vê-las
Renega o seu próprio chão
Mais vale essa comunhão
Entre o caminho e o andante
Que nesse andejar constante
Descobre ao mirar o mundo
Que o rio quanto mais profundo
Mais tempo terá por diante

DÉCIMAS DA RAIZ PAMPEANA
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